quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Arremesso

Encontro é desencontro. Falei como quem escreve e tece tecido estampa. E alinha marcando texto de forma cor composição, escrevo como quem desentulha, e manda pra máquina de costura o desempenho.
Encontrei-os assim! Mesmo assim encontrei cada um desses aí.
Postos antepostos direção desvio perca de tal qual rumo sua luz-alvo-pé de fruta carregado. De novo exercício de quem fala tecendo roupa-texto frouxa que não lhe servirá nem uma perna.
Talvez seja a atração o movimento contrário, do que se atrai opostamente. Veja bem: nem tudo se atrai em sentido de, mas em qualquer um.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Cor

Voltar. Voltar da viagem. Voltar e perceber-se. Trazer na bagagem cores novas, tantas mais que possam agora fazer da tela o novo palco dos meus sentimentos. E que as lamúrias sejam azuladas, na mistura dos temas com os amarelos da raiva. Que se misture tudo, que a raiva e as lamúrias se misturem com os sorrisos e as rugas da felicidade. Que se misture o verde dos sonhos com o vermelho da mentira e da vergonha, até no fim não haver mais cor. Haver expressão, haver apenas e só sentimento. Não quero ser atraído só para a luz quando tanto me foi ensinado aquando fechava os meus olhos. Saberei finalmente ver das duas formas, com todas as cores, todas a dançarem à volta de uma chama invisivel. Agora que voltei, serei outro. Pois o tempo dá-nos oportunidade de renascer e o erros de finalmente acertarmos. Chega de apatia! Hoje levanter-me-ei da cama e farei da vida uma nova pintura. Com ou sem pincéis, saberei pintar. E das voluptosas pinceladas se fará ecoar as mil vozes de Mahler em exultação do novo!

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Para ler quando voltar

Ir e vir até ir e ir.
A turbulência desenfreada de uma chama que não vem do fogo, mas presença em peso e calor: a cidade! E é quando nela que se reencontra, o outro, o eu. Posso parecer um completo descompletamente em transe e repetições, mas é ainda o reencontro, o outro eu. 
Ir e vir até ir e ir. 
É tempo de furtar frutos, o furto homem, o fruto deus. E beirar cada esquina muralha concreto e méritos e bolsas e lucros: me perco nesse tempo.
Destino morte, ir e ir. 
O sol elétrico, quando desesolar. E tudo me atrai tão e eroticamente que quero ir. Acende-me quando esse tempo for outro, e é outro o já, que efêmero, que econômico. Que belo, que horroroso. Que na cara, que além. Que nada isso ilumina, penumbra, beco. Que mosaico, que noite, que horas são? 

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Sou Natureza

Não peço mais que isso mesmo: nada. Peço apenas um pouco do tudo que sou eu. Alguém que está no meio de tanto e de tudo, envolto sobre véus, nas sombras ocasionais de um corpo temporário assombrado por vidas que já foram minhas e que apenas as vejo a pedido do reflexo. Quando o que de mim sei se torna vago, como poderei exigir que as rugas da minha face sirvam de mapa a outros para um mundo de sentidos e sentimentos flamejantes que tentam incendiar os músculos cansados do fingido rosto? Peço à chuva que chore por mim e me leve a tristeza, ou ao Sol que reflicta nos meus olhos o brilho que foi esquecido. Talvez assim possa fingir-me e negar o que me faz humano. Talvez não pertença a este conjunto de seres chamados de humanos que vejo numa eterna agitação pelas ruas das cidades, quais formigas obreiras que ao perderem o carreiro para o ninho encontram o derradeiro destino de uma morte certa e solitária. Não me vejo pertencer ao carreiro infindável de cegueira crónica e não diagnosticada. É então que me lembro que sou de cá. O Sol não me trai. E depois da tempestade que acompanha os meus pensamentos num tumultuo quase sincronizado, revejo no horizonte o céu pintado de puro ouro, mais valioso que qualquer nada ou tudo, mais quente que a chama do fogo, capaz de me fazer lembrar que sou água, sou sangue, sou um pedaço deste Mundo aquando respiro o oxigénio que o ar me providencia. Sou Natureza. A ela pertenço e nela me revejo. E por ela viverei mais e mais dias, apenas para ser testemunha da sua beleza que não me pára de surpreender com o seu algoritmo divino de tão perfeita concepção.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Algoritimo

Eis como conduzo, da letra à palavra, essa tão pra dizer o já dito: demônio delírio. É como desescrevo, assim deixo que os limites do que vejo me beija, e nem vou palestrar sobre essa garrafa: usada inumeráveis vezes, agora em repouso, sobre o baú, um azulado à atravessa, translucida, da tela de tv, adaptada para monitor.
Acha mesmo que descrevi? Falso!
Pois somente meus olhos e somente meus olhos refletem exatamente essa imagem, salvo pela distorção de sua estrutura, a do olho, a do que vejo. Tu me lê? não. Tu me sabe? Não. Apenas fingimos a dor, o tocante, o óbvio, delírio demônio. Faço-o crer que um diálogo nos percorre, ainda que esse cubo tão escuro, ainda que de negro me tomo, me supro, me caibo: suplico que o tire dos meus ombros.
Agora projeto para que vejas, vê? Vê que o nada é maquinal e sagradamente preenchido pelo tudo? É que sempre esteve aí, e subverter princípios que parecem inquebráveis é  tarefa pra quem quer ir além do quem.
Duas vozes, timbradas mútuas rasgam alcançam furam, portanto peço que pedimos ao tempo uma longitude, à cor uma saturação, à linha uma direção, à letra um sagrado, ao sonho um sentimento, à flor uma semente, aos olhos uma miragem, à perspectiva um plano, velocidade um recorte, peixe um respiro, ao véu um vento, à sombra um contraste, norma uma sondagem, ao sexo um outro, às costas um equilíbrio e à página um quem. 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Já me consigo ver?

Será que é quando estamos surdos que melhor ouvimos? Será que é quando estamos cegos que melhor vemos? Talvez seja quando já não nos lembramos de nós próprios, ou sequer tenhamos controlo sobre esta selvagem mente que sai da sua jaula pelas frisas de metal que sejamos capazes de pensar com clareza e pintar as linhas da turbência que nos rodeia. Gostaria de conseguir sair de mim próprio. Alojar-me na concha de outro, como um caranguejo-eremita, e talvez ver com olhos diferentes. O que será da realidade então? Como será o toque? Ser cego de mim para ter a visão de outro. Apenas ver os verdes prados e dilatar a pupila ao perigo de orelhas atentas. Talvez estes meus olhos estejam gastos como o fino filamento de tungsténio que ilumina o meu quarto, protegendo-me da noite escura e dos medos que nela se ocultam. Talvez devesse ser um animal por detrás desses olhos de negrume. Talvez. São tantos os universos dentro de mim dispostos sobre uma mesa côncava; berlindes lançados pela mão de uma criança em desordem e caos. Pergunto-me o que pensará o coelho, ou o lagarto quando se aquece ao Sol, ou o gato quando olha sério para a parede branca? Reflexos atrás de reflexos, ora dentro de nós, ora nos outros. Já me consigo ver?

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Imensidão na palma da palavra

O salto entre uma terra,
e outra.
Pernas para que alcancem.
Cansam de buscar percorrências.
Correspondências entre distâncias.
Instância: tive essa sensação de percorrer.
Correr extremidades.
Externidades meu mundo, vazio de tudo.
Luto.
Pedra no caminho virando pó.
Instância: tive essa sensação de pequenez.
Minha não: do universo
Que sou!