sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Para ler quando voltar

Ir e vir até ir e ir.
A turbulência desenfreada de uma chama que não vem do fogo, mas presença em peso e calor: a cidade! E é quando nela que se reencontra, o outro, o eu. Posso parecer um completo descompletamente em transe e repetições, mas é ainda o reencontro, o outro eu. 
Ir e vir até ir e ir. 
É tempo de furtar frutos, o furto homem, o fruto deus. E beirar cada esquina muralha concreto e méritos e bolsas e lucros: me perco nesse tempo.
Destino morte, ir e ir. 
O sol elétrico, quando desesolar. E tudo me atrai tão e eroticamente que quero ir. Acende-me quando esse tempo for outro, e é outro o já, que efêmero, que econômico. Que belo, que horroroso. Que na cara, que além. Que nada isso ilumina, penumbra, beco. Que mosaico, que noite, que horas são? 

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Sou Natureza

Não peço mais que isso mesmo: nada. Peço apenas um pouco do tudo que sou eu. Alguém que está no meio de tanto e de tudo, envolto sobre véus, nas sombras ocasionais de um corpo temporário assombrado por vidas que já foram minhas e que apenas as vejo a pedido do reflexo. Quando o que de mim sei se torna vago, como poderei exigir que as rugas da minha face sirvam de mapa a outros para um mundo de sentidos e sentimentos flamejantes que tentam incendiar os músculos cansados do fingido rosto? Peço à chuva que chore por mim e me leve a tristeza, ou ao Sol que reflicta nos meus olhos o brilho que foi esquecido. Talvez assim possa fingir-me e negar o que me faz humano. Talvez não pertença a este conjunto de seres chamados de humanos que vejo numa eterna agitação pelas ruas das cidades, quais formigas obreiras que ao perderem o carreiro para o ninho encontram o derradeiro destino de uma morte certa e solitária. Não me vejo pertencer ao carreiro infindável de cegueira crónica e não diagnosticada. É então que me lembro que sou de cá. O Sol não me trai. E depois da tempestade que acompanha os meus pensamentos num tumultuo quase sincronizado, revejo no horizonte o céu pintado de puro ouro, mais valioso que qualquer nada ou tudo, mais quente que a chama do fogo, capaz de me fazer lembrar que sou água, sou sangue, sou um pedaço deste Mundo aquando respiro o oxigénio que o ar me providencia. Sou Natureza. A ela pertenço e nela me revejo. E por ela viverei mais e mais dias, apenas para ser testemunha da sua beleza que não me pára de surpreender com o seu algoritmo divino de tão perfeita concepção.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Algoritimo

Eis como conduzo, da letra à palavra, essa tão pra dizer o já dito: demônio delírio. É como desescrevo, assim deixo que os limites do que vejo me beija, e nem vou palestrar sobre essa garrafa: usada inumeráveis vezes, agora em repouso, sobre o baú, um azulado à atravessa, translucida, da tela de tv, adaptada para monitor.
Acha mesmo que descrevi? Falso!
Pois somente meus olhos e somente meus olhos refletem exatamente essa imagem, salvo pela distorção de sua estrutura, a do olho, a do que vejo. Tu me lê? não. Tu me sabe? Não. Apenas fingimos a dor, o tocante, o óbvio, delírio demônio. Faço-o crer que um diálogo nos percorre, ainda que esse cubo tão escuro, ainda que de negro me tomo, me supro, me caibo: suplico que o tire dos meus ombros.
Agora projeto para que vejas, vê? Vê que o nada é maquinal e sagradamente preenchido pelo tudo? É que sempre esteve aí, e subverter princípios que parecem inquebráveis é  tarefa pra quem quer ir além do quem.
Duas vozes, timbradas mútuas rasgam alcançam furam, portanto peço que pedimos ao tempo uma longitude, à cor uma saturação, à linha uma direção, à letra um sagrado, ao sonho um sentimento, à flor uma semente, aos olhos uma miragem, à perspectiva um plano, velocidade um recorte, peixe um respiro, ao véu um vento, à sombra um contraste, norma uma sondagem, ao sexo um outro, às costas um equilíbrio e à página um quem. 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Já me consigo ver?

Será que é quando estamos surdos que melhor ouvimos? Será que é quando estamos cegos que melhor vemos? Talvez seja quando já não nos lembramos de nós próprios, ou sequer tenhamos controlo sobre esta selvagem mente que sai da sua jaula pelas frisas de metal que sejamos capazes de pensar com clareza e pintar as linhas da turbência que nos rodeia. Gostaria de conseguir sair de mim próprio. Alojar-me na concha de outro, como um caranguejo-eremita, e talvez ver com olhos diferentes. O que será da realidade então? Como será o toque? Ser cego de mim para ter a visão de outro. Apenas ver os verdes prados e dilatar a pupila ao perigo de orelhas atentas. Talvez estes meus olhos estejam gastos como o fino filamento de tungsténio que ilumina o meu quarto, protegendo-me da noite escura e dos medos que nela se ocultam. Talvez devesse ser um animal por detrás desses olhos de negrume. Talvez. São tantos os universos dentro de mim dispostos sobre uma mesa côncava; berlindes lançados pela mão de uma criança em desordem e caos. Pergunto-me o que pensará o coelho, ou o lagarto quando se aquece ao Sol, ou o gato quando olha sério para a parede branca? Reflexos atrás de reflexos, ora dentro de nós, ora nos outros. Já me consigo ver?

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Imensidão na palma da palavra

O salto entre uma terra,
e outra.
Pernas para que alcancem.
Cansam de buscar percorrências.
Correspondências entre distâncias.
Instância: tive essa sensação de percorrer.
Correr extremidades.
Externidades meu mundo, vazio de tudo.
Luto.
Pedra no caminho virando pó.
Instância: tive essa sensação de pequenez.
Minha não: do universo
Que sou!

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Não quero ser cego

Sei o quão pequeno sou. A importância que tenho é inversamente proporcional à distância que me encontro do planeta. Cá em cima sou espectador de todas as belezas. Até as planícies mais devastadas pela mão do homem se parecem únicas e extraordinárias. Quanto mais longe estou ou sou, mais nítida se torna a realidade. Acho que nada me deixa mais assustado que a ignorância das virtudes do nosso planeta. Do azul imenso que lá ao longe se mistura com a névoa que se instala na linha ténue e fronteiriça entre água e ar, dos rebanhos brancos que se avultam numa correria sem fim pelos céus, atiçados pelo ladrar do vento incansável e constante. É curioso ver como a vida é constituída de paralelismos singulares. Quando olho o céu vejo rasgões brancos que se vão traçando num risco de giz branco em fundo azul. Agora que sou esse risco, vejo quase um reflexo perturbador no oceano. Um mesmo riscar feito por um lápis diferente, ora pelo divertido barco, ora pelo imponente navio de cargas pronto a atravessar o oceano, garantindo a globalização que todos gozamos. Chego a não acreditar no que vejo. Como se todos os meus problemas se tornassem insignificantes face a toda esta imensidão. Se consigo ver as nuvens a brincar com os reflexos e as sombras, se posso assistir à epiderme oceânica que me faz recordar a minha própria impressão digital, como posso ficar indiferente? Vivo numa obsessão simples de que tudo o que nos rodeia se torna apenas recriações da mesma música tocada vezes e vezes sem conta na mesma cadência, mas com compassos e tonalidades diferentes, como se a cada pirueta da bailarina, o seu fundo se alterasse ligeiramente para fazer justiça ao espaço e ao tempo. Não consigo deixar de pensar na imagem do neurónio que se assemelha à do universo. Talvez o olho humano veja muito mal, pois apenas foca o óbvio e o inútil, esquecendo-se do todo o resto que talvez se apresente à visão num outro plano, ou noutra direcção.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Para esmaecer faço contraste

És encanto a beleza? Pulsação é um fluxo contínuo? O choro escorre em declínio? Morte é o ultimo parágrafo do livro? Um emaranhado de fios tênues são para resistir ou camuflar? Me pediram para apagar, risquei! Pediram pra riscar, derreti, deixei liso a superfície, estranhei, fiz desencanto da beleza, chorei de cabeça pra baixo, fechei as mãos e levantei os braços: pulsei desritmo. Moí o livro em escultura, e escultura em respiração sufocada. 
Tudo pelo receio de encarar o enredamento, o resultado de muito trabalho, a morada pormenorizada em desconstrução durante a chuva, pra ninho, pro núcleo, pra comida. Tudo para poder suplicar: cesse agora esse eu como um propósito, deixe-me ser torto! Não é a própria substância da natureza um desequilíbrio?  Quicá minha observação opte pela esquina dobrada, pouco explorada e morta. Morta? 

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Tecer vidas?

A morte também pode ser bela. Um fim tem sempre um início. E a roda da vida continua a girar sem cessar, sem se cansar. O pequeno intervalo de tempo, uma pequena distração, um passo em falso é suficiente. Um pulso a mais, outro a menos e a mariposa já não voa mais. Com essa cor característica da paz, o branco, a aranha meticulosamente tece um novelo de morte e desgraça. Se me perguntarem se é belo, responderei que sim. Se me perguntarem se é cruel, responderei que é a natureza. Torna-se então difícil tecer uma linha branca, ténua, entre o belo e horroroso. Deveremos chorar sempre que a fénix se extingue, ou sorrir quando renasce do pó das cinzas? Talvez os dois. É certo e é esquecido que somos todos isto e aquilo, mas um isto feito do mesmo, do mesmo pó, das mesmas cinzas, enrolados numa teia de vida sem início, ou fim, num padrão há muito já desenhado nos astros ardentes, ou no fernesim elétrico dos neurónios, que se repete nas mãos vividas de uma mulher que gentilmente tece o enxoval para o seu neto. Um mesmo emerenhado de fios, ligados entre si de uma forma tão semelhante que chega a ser arrepiante. Que se pode fazer perante tais coincidências? Sorrio.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Pulso

Persisto no gesto vazio para verem que não me findo em que dizem que findo, eu não findo, não defino, nem uma nem outra conseguiria definhar-se em findar. Ninguém se termina afinal, vez que, vez não, há movimentação sempre a pulsar e correr pelo corpo todos os sinais da realidade viva que somos. E quando uma dureza de insensibilidade gelada cobre a pele, consome os órgãos, é hora doutras vidas fazerem ocupação, verem sequencia para um desfecho.  
Por traz do debaixo subalgo inferior entre a pedra e a poeira do chao, no tempo entre um segundo e outro: há fluxo, seja de terror e espanto, há pulso. Observo a paisagem morta viva pelos seus timbres, cerro os olhos, piscada bobíssima, e nunca mais verei paisagem morta viva como a vi. Nunca mais meus olhos se fecharão no mesmo instante de tempo, o recorte ali ficou por lá, tudo por mais é reflexo, luzes em reflexos, estrelas mortas, espelhos mentirosos, cores vãs e imperfeição de uma simplicidade que é gesto, e não finalidade. 

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Movimento

As formas e os limites são a razão da minha opressão interior. Olharei por algo mais simples. A beleza é simples, mas delicada, não deixando os seus pormenores complexos, mas por outro lado, apresentando-se leve como uma pena que suavemente vai sendo baloiçada pelo vento de forma graciosa, mas ainda desajeitada. Apresenta-se assim a delicadeza de uma bailarina de vestes brancas e cara empalidecida. Quando esta desempenha com a exactidão milimétrica um plié e faz então girar o corpo numa leve pirouette, é possível entender a simplicidade dos movimentos e a graciosidade com que se apresentam até nós numa dança que se parece de tão fácil prática. A beleza prende-se pelo que parece simples. Se de facto desejamos ver este movimento, esta sequência de instantâneos captados pelo nosso olhar, temos de aprender a não nos focarmos no perfeito e no correcto. Ver o movimento como ele é: instável e irregular. Permitirmo-nos apreciar a beleza na imperfeição e voltar à simplicidade. Deixar de tentar perceber o voo coordenado das nuvens no céu e entender que elas são livres de fazer a sua própria trajectória, fazendo o Sol aparecer quando assim o desejam, ou engoli-lo em chuva, apagando a luz.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Desalinho

De tantas refrações cheguei a conclusão: foco é desencanto.
Se persistem em algos estáticos, pontos únicos, firmezas em solo, digo que sou a negação!
Que estou liquidificando, hidratando pra ceder. Que perco do corpo as marcas nesse descongelar.
Pouco importa o tom mesmo, o elemento mesmo, a passagem mesmo, os desalinhos, assimetrias mesmo, as rugas, a curva infindável, desproporção mesmo, as indireções.
Nada na verdade importa tanto quanto a falta de ter importância.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

O que via nas cores


Agora que as começo a distinguir nos reflexos, vejo que afinal também podem mentir. Subjectivas na sua essência, prisioneiras da nossa percepção sensorial, viajando de indíviduo para indíviduo, as cores causam em mim distracção. Se já me custa distinguir o cinzento do coração com o vermelho do cérebro, como poderia perceber neste turvo reflexo d'água? Um jogo de convergências, divergências, birrefringências aquáticas desalinhadas e apresentadas em raios de luz dobrados que me confundem a imatura visão do olho embrionário que ainda agora se propôs a ver. Permanece a simplicidade e a saudade dos tons cinzentos, pretos e brancos, que por serem simples, são capazes de apresentar-me o detalhe da natureza humana, a sombra que cai sobre a face no retrato cansado de uma mulher vivida, com as suas rugas de tristeza e trabalho. As cores ferem-me o pensamento lembrando-me ainda mais tudo o resto. Aprenderei então a senti-las, só depois vê-las e finalmente compreendê-las.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Convite a medir o peso do vento

cravo-te, suavemente:
as horas desmancham-me,
posto que sombra é movimento.
ainda que estável, sou mutante.
emaranho-tu, ainda que tal hora emaranho em tu.
Indago: onde quando em que por que pra que essa tocha efêmera? Essa chama mancha vazia, tosca a empalidecer?
Qual intuito afinal de se projetar sem tocar? Construir com tijolo vazio, irreciproCidade, ruína sem entulho.
Pronto: agora que vejo cores, atormenta-me ter mira invertida e pouca fé.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Para haver sombra, tem de haver luz

Pergunto-me se a minha sombra te castiga. Se as nuvens que por ti passam também ocultam a luz como ocultam a mim. Se foi só a mim que o Sol virou costas, deixando a minha sombra desaparecer para uma maior me ocultar. Uma sombra tão pesada como o tempo em si, pesando-me os ombros como aquela mala que transportava sem que nada tivesse nas costas. Uma mala tão cheia de nada e de tudo, sem alças, sem fundo, sem limites, que tudo carrega, que tudo atraí numa armadilha celestial que até a rápida luz absorve. Tento tirar este mal-estar das costas, deixar de carregar o meu peso e dos outros. Tentar ser livre e poder ver a luz do Sol novamente devolvida aos meus olhos. Talvez a luz que o fogo me devolve seja um começo, em tempos em que as únicas vestes que me combrem a alma são pintadas pelo negrume e o vácuo.

domingo, 31 de maio de 2015

Quero ver mais do que uma sombra

Talvez seja o agora o tempo certo para o início do desapego. Seja pelo tom muitíssimo ausente, outra pele: o impreenchível que tu me deixou.
É tudo por essa opacidade, de tanta clareza no céu, esse azul hipócrita, paradoxal, dizem de uma profundidade infinita - o acho opressor!
Me ajude a parar de culpar, é tudo muito externo, ou eu que o boto de fora pra dentro, quando é de dentro pra fora. Agora mais que agora tenciono a natureza e toco a abstração, toco a memória no tocante você.
É bem uma negação, devo começar por ela: do tempo certo, do pensamento errado, do externar de interiorizar de fazer acontecendo tal como fosse a cor o azul cinza demais, bem como a música falha, a pele com cheiro o tom e quentura e é você quem me aparece de novo. O todo é essa marca, é toda essa transparência que me nunca foi. Tenho peso nos ombros por tudo ver cinza, ainda que em sua casa tivessem muitos vitrais, lembrei (memória indigna que me mata, entre-lugar de lembrar e inventar) de quando você me explicou cada cor, que os raios do sol atravessaram, que eu ficava bem naquela luz. Desse momento eu simplesmente quero uma fotografia, já que todas as coisas refletem corluz e que o negativo fotográfico é mais sensível que meus olhos: "os raios do sol tocando a mão, a nuvem branquinha fazendo contraste no céu azul" - atravesse o mar me trazendo essa foto!

sábado, 30 de maio de 2015

O toque


Pergunto-me se foram as palavras que te levaram. Se foram o ais ou uis. As lágrimas e a dor. Se fui eu, se foste tu. Quando te penso esquecido, lembro-te pelos sentidos mentirosos e vacilantes que gentilmente te reconhecem nos pormenores mais tolos e insensatos. No outro dia cheirei-te, hoje provei-te. A colorida paleta dos sentidos, desenha linhas no fundo da minha memória sem que eu me aperceba da textura da cor, dos relevos das telas, ou mesmo das sombras da pintura. Apenas quando sou de novo tocado pelos sentidos, é-me então permitido um novo deslumbrar, numa galeria de arte que pensava esquecida, onde as palavras, os ais e os uis não têm lugar. Onde não há palavras, só saudade.