quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Sou Natureza

Não peço mais que isso mesmo: nada. Peço apenas um pouco do tudo que sou eu. Alguém que está no meio de tanto e de tudo, envolto sobre véus, nas sombras ocasionais de um corpo temporário assombrado por vidas que já foram minhas e que apenas as vejo a pedido do reflexo. Quando o que de mim sei se torna vago, como poderei exigir que as rugas da minha face sirvam de mapa a outros para um mundo de sentidos e sentimentos flamejantes que tentam incendiar os músculos cansados do fingido rosto? Peço à chuva que chore por mim e me leve a tristeza, ou ao Sol que reflicta nos meus olhos o brilho que foi esquecido. Talvez assim possa fingir-me e negar o que me faz humano. Talvez não pertença a este conjunto de seres chamados de humanos que vejo numa eterna agitação pelas ruas das cidades, quais formigas obreiras que ao perderem o carreiro para o ninho encontram o derradeiro destino de uma morte certa e solitária. Não me vejo pertencer ao carreiro infindável de cegueira crónica e não diagnosticada. É então que me lembro que sou de cá. O Sol não me trai. E depois da tempestade que acompanha os meus pensamentos num tumultuo quase sincronizado, revejo no horizonte o céu pintado de puro ouro, mais valioso que qualquer nada ou tudo, mais quente que a chama do fogo, capaz de me fazer lembrar que sou água, sou sangue, sou um pedaço deste Mundo aquando respiro o oxigénio que o ar me providencia. Sou Natureza. A ela pertenço e nela me revejo. E por ela viverei mais e mais dias, apenas para ser testemunha da sua beleza que não me pára de surpreender com o seu algoritmo divino de tão perfeita concepção.